Na falta de candidatos com ficha limpa, apresento minha candidatura ao próximo pleito. Talvez a minha ficha não esteja limpa quando se trata de discutir o campo teológico. Por outro lado, como cidadão, garanto aos eleitores uma ficha tão limpa, que chega a ser transparente. Poucos neste País de origens nada louváveis poderiam se exprimir do mesmo modo. Não tenho patrimônio: ainda pago mensalmente, há 48 meses, as prestações de três automóveis. Explico: o valor final será de três, mas ficarei apenas com um. Minha casa continua em projeto, pois o governo não facilita nem um pouco o saque para quem tem o FGTS. Eu tinha um apartamento, mas é uma longa história. Não vem ao caso nesse momento. Estou em campanha! Pergunte ao Itaú, o banco que me furtou 120 mil reais. Seus proprietários deverão esclarecer como isso aconteceu. O fato é que todos os anos eu apresento religiosamente a declaração de Imposto de Renda, pago ou sou extorquido diariamente em outros impostos, entrego o vale-rodovia no assalto dos pedágios, nunca fui fichado em qualquer das três polícias inventadas no Brasil, não sou terrorista ou amigo de governantes cubanos, venezuelanos, norte-coreanos, iranianos ou bascos e tupamaros. Não pretendo matar ninguém, apesar de já haver desejado em meu subconsciente. São aquelas questões da moral e ética religiosas. Também não é importante para esse curto espaço. Para ser candidato, não vale a pena concorrer à Câmara Federal ou ao Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Então, só me resta escolher o Palácio do Planalto. O problema é o partido. Poderia ser o PMDB ou o Democratas, órfãos de candidatos próprios há muitos anos. Todavia, eles não gostariam de apoiar alguém com pensamentos de esquerda, fundamentalistas, radicais. Vamos, então, ao PSOL. Seu candidato não dura muito tempo. Se vencer, morre de emoção antes da posse. Mas acho que eles não gostariam, também, já que minhas ideias são de direita, conservadoras, elitizantes. Resta fundar um partido na semana antecedente às eleições. Que tal? O Jayme Lerner fez história em Curitiba, virando uma eleição perdida ao se candidatar faltando somente quinze dias para a votação. Por que não? Se ele conseguiu, acredito que poderei lograr sucesso junto aos eleitores na próxima semana. Antes de se filiar, vou apresentar as propostas com o objetivo de tentar sensibilizar algum partido. Vamos lá: 1) Como a educação se trata da área que requer investimento de longo prazo, alguém precisa iniciar essa etapa. Então, o Orçamento Geral da União terá de repassar para a educação, em meu mandato, 20% do PIB. Com isso, nenhuma criança e adolescente ficará perambulando pelas ruas. A responsabilidade por enviá-los à escola irá recair sobre os pais com consequências penais. A meta no ensino superior visa a abrir vagas para todos. O inusitado será a universidade da terceira idade, não com cursos técnicos ou projetos de passatempo e convivência, mas com ensino de qualidade e de nível superior, alinhados à realidade dessa faixa etária. Outro quesito será a extinção das cotas. Se for necessário, cotas somente por motivos econômicos. 2) A Reforma Tributária tem por objetivo baixar impostos e aumentar o número de contribuintes, diminuindo assim a sonegação, estimulando o crescimento, a abertura de vagas e o consequente aumento de salários. Até o fim do mandato, o salário mínimo será o maior da América Latina, cerca de 1.500 reais. Basta haver queda de impostos. A arrecadação irá aumentar pela quantidade de contribuintes e não pela elevação das taxas e da quantidade de tributos. 3) É absurda a existência de duas polícias - a militar e a civil - e a guarda municipal. Uma só é o suficiente. O que precisa acontecer é a profissionalização, novos critérios de admissão, aumento de salários, garantias de seguro de vida e projetos que visem ao bem-estar social, nos moldes das melhores corporações do mundo, como na Austrália, Canadá, Alemanha e Suécia. 4) Para a população ter acesso à saúde, há necessidade de se criar o serviço compulsório pós-graduado. Depois da formatura, todos os profissionais de saúde deverão atuar em instâncias públicas, atendendo aos mais carentes. O salário deles virá de um fundo participativo do Ministério da Saúde, no qual quem tem renda mínima suficiente só poderá usar os benefícios da saúde pública se assumir o pagamento dos serviços requeridos. 5) A matriz energética será gradativamente alterada para as fontes naturais, como as energias solar e eólica, abortando todo e qualquer projeto hidroelétrico ou cuja fonte esteja no petróleo. A companhia estatal terá de baixar os custos ao consumidor dos combustíveis e abrir espaço ao investimento em outras tecnologias. Automóveis à bateria passarão a ser realidade. 6) Outra matriz que deverá sofrer mudanças será a de transporte, cuja infraestrutura migrará para a construção de estradas de ferro entre as cidades e estados, e de metrô ou trens urbanos nos municípios, que incentivarão, também, o uso de alternativas não-poluentes como a bicicleta e assemelhados. 7) Não haverá copa do mundo nem olimpíada no Brasil. Não podemos ser reféns da Fifa e do COI. O Brasil precisa impor sua soberania e não sacrificar a massa em prol de interesses de uma minoria sem escrúpulos. 8) A Reforma Política pretende reduzir o número de partidos para três e impedir a criação de Estados e municípios, proibindo também que candidatos com ficha suja concorram, bem como aqueles que não tenham curso superior, religiosos, diretores de clubes e de empresas de comunicação. O Congresso passará a ser unicameral devido à inutilidade do Senado e o mandato presidencial aumentará para seis anos. Tudo isso com vistas à implantação de eleições distritais e à modificação do sistema de governo para o parlamentarismo. Outro ponto se refere aos eleitores. Apenas poderão votar os brasileiros alfabetizados. 9) O Brasil terá a confirmação de sua laicidade com a destituição de todos os capelães do serviço público, a extinção das disciplinas de Religião nas instituições de ensino públicas e de feriados religiosos, inclusive o Natal e a Páscoa, tornando-os facultativos. Por ocasião da posse, não haverá cerimônia religiosa nem juramento sobre a Bíblia, mas apenas um compromisso junto à Constituição Federal. Isso não caracterizará o Estado como ateísta, mas laico, respeitando-se as liberdades de expressão e consciência, seja ela filosófica ou religiosa. "Bem", alguém perguntará, "como você pretende aprovar essas medidas se acaso sua base no Congresso representar a minoria de deputados e senadores?" O primeiro passo começa com o diálogo entre as partes. Quatro anos não é um tempo muito longo para perdê-lo em intermináveis discussões. Desse modo, não havendo consenso, passa-se ao segundo estágio: medidas provisórias. "Mas, e se o Congresso continuar criando barreiras, dificultando a governabilidade?" Imediatamente virá o terceiro degrau: À não-existência de alianças, bom senso, persistência de fisiologismos e transparência de interesses estranhos à ordem estabelecida, resta tomar a atitude que o eleitor sempre espera de um governante em prol de seus concidadãos. Não irei titubear em fechar o Congresso e colocar ordem na casa. Se alguém tem dúvidas sobre isso, convide-me para ser candidato a presidente. Ruben Holdorf |
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