Horas depois, já em
casa, Ingrid começou a passar mal. Foi levada pela mãe, Eliete, ao
hospital e em seguida internada e transferida para Porto Alegre,
distante 300 quilômetros. Era o primeiro caso de pneumonite tóxica, que
segundo médicos, pode levar até uma semana para se manifestar.
Outros casos como o de
Ingrid se seguiram e fizeram as equipes de saúde emitirem um alerta para
que todas as pessoas que estiveram no local da tragédia procurassem
serviços médicos. O número de pessoas internadas chegou a crescer de
terça (29) para quarta-feira (30), por causa da pneumonite.
"É preciso estar atento
por uma semana", disse à Reuters o ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, que esteve em Santa Maria e Porto Alegre, visitando vítimas
hospitalizadas, até quarta.
A tragédia já deixou
235 mortos, número que ainda pode aumentar. Das 127 pessoas
hospitalizadas --dado atualizado nesta quinta pelo ministro da Saúde,
Alexandre Padilha--, 71 estão em estado grave e respirando com a ajuda
de aparelhos.
O médico Jaime Felipe
Federbusch, presidente da Regional Sul da Sociedade Brasileira de
Queimados, foi chamado no domingo para ajudar no socorro no Hospital de
Clínicas de Porto Alegre. Segundo ele, o mais grave não eram as
queimaduras da pele, mas a intoxicação dos pacientes com cianeto,
liberado em segundos assim que o material de isolamento acústico da
boate entrou em combustão.
"Aquilo (a boate) virou uma câmara de gás", diz Federbusch.
Um dos exames
realizados nos pacientes, segundo ele, mostrava as paredes das vias
respiratórias cobertas e entupidas de uma espessa camada preta. "Parecia
que estava entrando numa chaminé", conta ele.
As pessoas, segundo
ele, não se deram conta da letalidade da fumaça. Por isso alguns jovens,
vistos nas imagens do lado de fora da boate tentando derrubar uma
parede para ajudar nos resgates, acabaram passando mal mais tarde e
morreram.
De acordo com
testemunhas e sobreviventes, o fogo que começou na área do palco
--segundo a polícia, por causa do uso de um artefato pirotécnico por
parte da banda que tocava no local--, queimou a camada de isolamento
acústico, formando uma fumaça que se espalhou em menos de três minutos
pelo ambiente.
As pessoas correram
para a porta de saída, ainda segundo testemunhos colhidos pela polícia,
que era dividida com grades entre entrada e saída. Muitos tropeçaram ou
tiveram que pular as grades antes de conseguir escapar.
O delegado regional de
Santa Maria, Marcelo Arigony, responsável pelas investigações, acredita
que a luz dos banheiros foi confundida com a da saída, levando centenas
de pessoas para lá. Cerca de 100 corpos foram encontrados empilhados nos
banheiros.
"É uma fumaça que
quando inalada, a pessoa desmaia em dois minutos", disse Arigony.
"Acreditamos que não haviam saídas suficientes para retirar tanta gente
--estima-se que até 1.600 pessoas poderiam estar no local-- em tão pouco
tempo, o que representa superlotação", acrescentou.



